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Motor

 
Um artigo da Wired de 2014, intitulado Um guia ilustrado para o novo motor radical da F1, captura a atenção logo no primeiro parágrafo: os novos motores da categoria são tão radicais que a Fórmula 1 insiste que não se tratam de meros motores, mas de 'unidades de potência', grafadas com iniciais maiúsculas: Power Unit. Curiosamente, se invertermos a expressão para Unit Power, somos arremessados de volta a 1908, ano de lançamento do Ford Modelo T. O que para os tecnólogos é evolução, para Simondon é concretização.

Mas o que torna um motor de Fórmula 1, com seu núcleo híbrido de 1,6 litro, mais "avançado" do que o motor de quatro cilindros de um Ford Modelo T? Para Simondon, a resposta não reside em uma simples lista de características, mas em um processo evolutivo singular. Ele vê os primeiros objetos técnicos como abstratos: seus componentes existem partes extra partes, cada um desempenhando uma única função isolada. No mecanismo do motor do Ford Modelo T, a válvula lateral, o carburador, e o sistema de refrigeração operam como subsistemas distintos.

O carburador, um dispositivo simples, misturava combustível e ar por gravidade. O coletor de escape era parafusado ao coletor de admissão principalmente para aquecer a mistura ar-combustível que entrava — uma solução engenhosa, mas que operava por adição. Se um subsistema falhasse, o motor deixaria de funcionar. Faltava-lhe “ressonância interna”; as suas partes coexistiam, mas não funcionavam em verdadeira sinergia. A transição para o concreto começa quando os componentes passam a desempenhar múltiplas funções integradas. O exemplo clássico de Simondon é a aleta de resfriamento do cabeçote do cilindro. Em motores abstratos, as aletas são adicionadas para resfriamento. Em motores concretos, elas viram alas estruturais, dissipando calor e resistindo simultaneamente às pressões internas do cilindro. Isso é o que o filósofo francês chama de sobredeterminação — onde uma estrutura desempenha diversas funções essenciais para o todo — a marca registrada da concretização.

Avançando um século, vemos a expressão máxima desse processo na "unidade de potência" da Fórmula 1. Não se trata mais de um motor no sentido abstrato, mas sim de um indivíduo técnico, uma entidade autorreguladora definida por uma densa coerência interna e uma rede de causalidades recíprocas
As novas regras exigem uma quase divisão de potência 50/50 entre o motor de combustão interna de 1,6 litro e um motor elétrico triplicado. Aqui, a energia não é mais meramente produzida e consumida; ela é meticulosamente gerenciada em um circuito fechado. O calor residual e a energia cinética, antes efeitos colaterais prejudiciais, são capturados e reutilizados como funções positivas essenciais. A complexa MGU-H (Unidade Motor-Gerador de Calor), que recupera energia do calor dos gases de escape do turbocompressor, será removida até 2026, mas essa simplificação por si só força uma integração mais profunda dos sistemas restantes. A unidade de potência funciona apenas dentro de um ambiente preciso de estados de energia elétrica, taxas de fluxo de combustível e condições térmicas que ela ajuda a regular ativamente. O piloto, longe de ser um simples operador, torna-se o "coordenador e intérprete permanente" dentro desse conjunto. Eles gerenciam taticamente o "Modo Ultrapassagem", os botões de "Impulso" e as estratégias de recarga da bateria, interagindo com uma máquina que possui um propósito deliberado, ou uma "margem de indeterminação" para tais informações externas.

 Além disso, o paradigma competitivo mudou. Como observou o ex-diretor técnico da Renault, a batalha não se resume mais à potência máxima, mas sim à inteligência da gestão de energia. A tecnicidade está no software, nos algoritmos de controle e na eficiência de todo o sistema — uma camada oculta de concretização onde os elementos digitais e físicos se tornam inseparáveis. Simondon alertou contra o afastamento cultural da tecnologia, onde vemos as máquinas como meras ferramentas neutras ou como autômatos ameaçadores. Aqui, ocorre o contrário.

A evolução do Modelo T para o híbrido de Fórmula 1 oferece uma solução de apaziguamento: uma compreensão genética. Ela nos mostra que o progresso técnico não é apenas aditivo, mas integrativo. É a história de como os motores passaram de meros conjuntos de peças a indivíduos ressonantes e adaptáveis, profundamente interligados com seus operadores humanos e seus ambientes. Observar um motor sob a perspectiva de Simondon é apreciar o drama de sua transformação — um processo no qual cada componente, de uma simples aleta a uma bateria de alta voltagem, busca seu lugar necessário e multifuncional em um todo coerente.

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